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O debate – possível – entre materialismo reducionista e fenomenologia

Urbano Mestre Sidoncha

Investigaciones Fenomenológicas 2008 DOI: 10.5944/rif.6.2008.5517 (opens in new tab)

Study at a glance

AI-extracted from the abstract
Characteristics Theoretical or philosophical paper Peer reviewed
Key points Argues that dialogue between reductionist materialism and phenomenology, though difficult because of their diametrically opposed theoretical commitments, is not impossible. Contends that Francisco Varela's Neurophenomenology, which proposed such dialogue as necessary to overcome the hard problem of consciousness, remains overly formal and programmatic, leaving known difficulties unresolved.

Abstract

1. Da possibilidade -e necessidade -de um debate entre materialismo e fenomenologia Falar do debate entre materialismo reducionista e fenomenologia é, indiscutivelmente, um exercício cuja legitimidade não se obtém de imediato, num só lance.Aparentemente, trata-se de um debate que não foi solicitado por nenhuma das partes, convictas que estão da "incomunicabilidade" dos seus procedimentos, e do gigantesco hiato que separa as perspectivas, procedimentos, orientações e naturezas de cada uma das respectivas disciplinas.Diremos, porém, que, por entre os incontáveis factores de divergência, existem outros tantos "indícios" que, devidamente equacionados, nos permitem ampliar substancialmente o até agora exíguo espaço de relação entre materialismo reducionista e fenomenologia.Isto não significa, naturalmente, que, ao atentar nesses indícios, se possa transformar, subitamente, aquilo que antes era o fosso intransponível entre perspectivas antagónicas numa estreita e frutuosa relação.O que há de verdadeiramente decisivo nessa tentativa não é, pois, a súbita conversão do debate (cuja legitimidade há pouco se questionava) num conceito que é, per se, imediatamente transparente, nem tão pouco a construção de um terreno comum capaz de, por si só, aplanar as diferenças que nos levaram a ver, nos potenciais pontos de convergência, simples indícios para uma noção mais construtiva de debate.Dito de uma forma liminar, continua a ser difícil pensar no diálogo entre materialismo reducionista e fenomenologia, e essa Investigaciones fenomenológicas 6 358 dificuldade não resulta senão da diferença própria entre perspectivas que tomam, como decisões teóricas de fundo, orientações diametralmente opostas: de um lado, um materialismo reducionista que vê no tópico da idealidade da consciência um equívoco que é necessário desfazer, como a única estratégia que é capaz de pôr em evidência os mecanismos materiais que explicam as nossas funções de consciência e, de outro, nos antípodas dessa tese, uma fenomenologia que encontra na afirmação da idealidade (ou seja, da consciência como estrutura a priori, e não como realidade dada na ojectivação empírico-natural) anteriormente recusada um momento essencial para a sua própria constituição.Porém, do que agora se disse, resulta não tanto, como se pretendia, um processo de interna clarificação dessa noção preliminar de diálogo, mas, de novo, a concretização de uma estratégia que aponta para uma efectiva separação entre os dois campos.Pese embora a argumentação ziguezagueante que temos até agora patenteado, devemos fazer notar que ela tem, na sua génese, um motivo que recusa ambiguidades, e uma orientação bem definida: mostrar que o debate não é fácil, pelos motivos aduzidos antes, mas também que não é impossível.Ora, se é certo que a primeira afirmação não carece de maiores esclarecimentos, é igualmente certo que ainda não se vislumbra o ponto exacto a partir do qual é possível recusar a impossibilidade do diálogo.Mas, antes de nos ocuparmos dessa tarefa, e para sermos inteiramente justos, devemos lembrar que o programa apresentado em 1996 por Francisco Varela, a que chamou Neurofenomenologia, nasce justamente da assunção de que o diálogo que propomos é, não apenas impossível, mas, ao contrário, absolutamente necessário para a superação do chamado hard problem da consciência.Definida, desde o início, como uma estratégia que visa "combinar a moderna ciência cognitiva com uma abordagem disciplinada da experiência humana", 1 a Neurofenomenologia de Varela revela, porém, algumas dificuldades, sobejamente conhecidas e discutidas: desde logo, e em primeiro lugar, o carácter excessivamente formal e programático dessa abordagem nova, que resulta num embaraço, mais ou 1 Cf.Francisco Varela, "Neurophenomenology: a methodological remedy for the hard problem", in Journal of Consciousness Studies 3/4, pp.330-349.

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